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O Cena 3x4 é uma rede de formação, criação e compartilhamento entre coletivos das artes da cena. Criado em 2002, através de parceria entre Maldita Cia. de Investigação Teatral e o Galpão Cine Horto, resultante do desejo em comum de experimentar princípios do processo de criação colaborativa e estabelecer uma rede de qualificação e fomento da linguagem de teatro de grupo em Belo Horizonte. 

 

A cada edição, quatro coletivos participam de uma série de diálogos e encontros entre criadores e pensadores, enquanto compartilham seus processos de criação de uma obra de dramaturgia própria, a partir de princípios de processo de criação colaborativa.

Em suas primeiras 4 edições Cena 3x4 contribuiu para o fortalecimento das linguagens do teatro de grupo na cidade, fomentando coletivos como a Cia. Luna Lunera, Labapi, Teatro Invertido, Grupo Trama, Teatro Andante, Armatrux, a própria Maldita Cia, entre outros. 

A partir de 2006, a Maldita Cia. ministrou oficinas sobre processos de criação colaborativos e experimentou princípios de colaboração em todos os seus trabalhos. Em 2024 retomamos o Cena 3X4, com participação dos grupos Morro Encena, Maldita Cia, Caras Pintadas & Cia El Individuo, Artilharia Cênica.

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cena 3x4 2024 retratos

Retratos de processo
Cena 3x4 2024

Durante de nossos 6 meses de criação e compartilhamento, colecionamos aqui retratos_relatos dos processos Cena 3x4, e de cada grupo. Uma prática de memória, re-flexão e publicização dos caminhos da criação.

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 Cena 3x4 - 1º Encontrão

Por Ricardo Carvalho de Figueiredo 

 

Início dos trabalhos do 1º Encontrão Cena 3x4

    O 1º Encontrão do projeto Cena 3x4, edição 2024, aconteceu no dia 11 de maio de 2024, em um sábado ensolarado de outono.
   Enquanto os membros de cada grupo vinham chegando à sede do Galpão Cine Horto, local de encontro de grupos, pessoas de teatro e da comunidade, as primeiras trocas foram sendo tecidas. Artistas que já se conheciam da cidade de Belo Horizonte, artistas com mais ou menos tempo de criação teatral, mas todos com risos largos e vontade de iniciar um projeto de criação a partir do modo colaborativo.
   Amaury Borges, integrante da Maldita Cia. de Investigação Teatral, e anfitrião do 1º Encontrão, dando as boas vindas aos demais três grupos participantes da Edição Cena 3x4 2024, hasteou o totem do projeto e proferiu uma singela fala sobre o poder do território, noção que tem como elemento chave para 2024 as trocas, materiais e simbólicas, dos coletivos participantes em seus territórios de criação. 
  O Cine Horto, nesse contexto, tem significativa importância. O apoio e fomento a grupos advindos de várias configurações, mas que têm o coletivo como eixo da criação teatral. 
Amaury trouxe parte de sua história de vida, pois nascido em Cuiabá / Mato Grosso aprendeu, desde cedo com seus familiares, a importância do outro, com seus saberes transmitidos pelo exemplo e pela cultura oral. Esse mote, reavivou a retomada de uma canção proferida por ele aos presentes: “Pega no meu coração.”

  Entoados pela canção, ao mesmo tempo era um levante para que, em tempos de descrença no outro e de exacerbado individualismo, pudéssemos olhar para o teatro e a força que o coletivo traz para a criação compartilhada. Fizemos, então, uma caminhada do Galpão Cine Horto até à sede do Grupo Galpão, onde permanecemos durante todo aquele dia.
Adentrar a sede de um grupo de teatro, quando não é para a ocasião de um espetáculo, é muito especial. Ao chegarmos, nos deparamos com cenário, objetos de cena e sim, com a energia de um grupo que se mantém ativo desde os tempos da ditadura militar no país, já que o Grupo Galpão teve sua gênese no início da década de 1980. Ali, estão presentes muitos elementos simbólicos do trabalho do grupo. Há suor e vibração criativa, como diria Aderbal Freire Filho.
Cada integrante dos coletivos presentes fez uma breve apresentação de si. Destacou o modo de pertencimento ao coletivo, interesse e confluência junto ao seu grupo, além de falar sobre a função exercida nos processos de criação de espetáculos anteriores e a sua função para o atual projeto.

 

Os grupos e suas propostas


O terceiro momento do encontro propôs que cada coletivo falasse sobre os seus caminhos e procedimentos de criação. Vamos conhecer como estão, inicialmente pensadas, as proposições de cada coletivo. 
O grupo Artilharia Cênica, nascido em 2018, sempre criou a dramaturgia dos espetáculos e ações performativas do repertório do grupo. Chamou-nos a atenção de que parte de seus membros são professores de teatro em instituições de ensino públicas e privadas em Belo Horizonte, conjugando o fazer teatral com a criação artística. 
A inscrição no projeto Cena 3x4 teve como propósito para o grupo, a intenção de criar um novo espetáculo para todas as idades e de rua. Algumas inquietações que sobrevoam o grupo no momento são: encaminhamento emocional da sociedade onde crianças já nascem imersas no mundo digital, expostas a uma infinidade de realidades virtuais; relação entre humano e máquina; Inteligência Artificial, dispositivos eletrônicos e economia da atenção. Previamente, o coletivo elegeu o conto “O homem da areia”, do alemão de Ernst Theodor Amadeus Hoffman como pré-texto para criação.
Morro Encena foi o segundo grupo a apresentar a sua proposta para a criação colaborativa. Com um histórico longevo, o grupo traz como referências de suas criações os Direitos Humanos e a realidade da periferia conjugado com as relações de gênero a partir da estética da favela. A proposta inicial do coletivo é partir do texto já encenado “Fia feia de delegado”, e criar um novo espetáculo, respeitando as premissas: investigar o território; a vivência de cada membro em todas as etapas do processo; confecção e o uso de máscaras. 
O grupo Caras Pintadas e Cia El Individuo iniciou seus trabalhos em 2009 como um teatro mambembe itinerante com foco no trabalho de rua e espaços alternativos. Algumas premissas do trabalho do coletivo são pautados pelos seguintes campos: musicalidade; mascaramento cênico; capoeira; corporeidades negras. A proposta  para 2024 é iniciada pelo texto “Defunto só presta morto”, de Fernando Limoeiro, unindo a linguagem da palhaçaria de rua e do circo-teatro. 
A Maldita Cia. De Investigação Teatral, anfitriã do projeto Cena 3x4 e quarto grupo participante da edição 2024, também estará em processo de criação e tem como inquietação, desde a sua fundação, o tensionamento das hierarquias presentes na criação teatral. Traz como mote para este ano a proposta de revisitar aquivos da ditadura a partir do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e dos relatórios da Comissão da Verdade, incluindo a participação de uma nulher aprisionada à época, como fonte e testemunha dos acontecimentos e resistências dos presos políticos.
Para fechar esse momento, os integrantes da Maldita Cia propuseram uma breve conversa sobre a criação em processo colaborativo, incluindo as experiências colhidas ao longo das edições anteriores do Cena 3x4. Há como premissa, a construção de uma dramaturgia própria, mantendo a manutenção e as relações vivas nas funções teatrais. 3 funções (atuação, dramaturgia e direção) e 4 coletivos (Artilharia Cênica, Morro Encena, Cara Pintada e Maldita Cia. de Investigação Teatral).

Proposições para a cena

    Tomando como lema que é na cena propriamente dita que as discussões e apostas se concretizam, os integrantes da Maldita propuseram aos coletivos a divisão por funções: dramaturgia, direção, atuação e produção. E o mais importante: cada função, a partir de denominadores comuns, proporia ao seu coletivo uma linha de experimentação na cena.
   Acompanhei o núcleo de dramaturgia, composto por cada dramaturgo/a de um dos coletivos. O provocador, Anderson Feliciano, responsável pela dramaturgia da Maldita Cia., propôs uma partilha dos modos de trabalho de cada dramaturgo/a, orientando algumas conversas que surgiram ao longo do diálogo. Foi um momento de troca sobre o modo como cada dramaturgo/a cria junto do em seu coletivo – um privilégio saber como cada criador trabalha, suas fontes de inspiração, estudo e interesses. 
   Retomado os grupos, cada núcleo de atores apresentou um esboço de cena aos presentes. Nós, espectadores/testemunhas, nos deparamos com imagens potentes trazidas pelos atores e um grau de experimentação típica de atores-pesquisadores que não se contentam com a primeira ideia, por mais que não a descartam como gênese da criação.
   Após a apresentação dos atores, os grupos se reuniram com os seus respetivos dramaturgos(as) e diretores(as), que propuseram, aos seus coletivos, uma nova experimentação sobre o que foi trazido pelos atores. 
   Novas e/ou aprofundadas experimentações voltaram para a cena, a partir da elaboração dos atores. Cabe ressaltar que cada coletivo, a partir da proposição inicial trazida para o projeto, apresenta os motes da criação para as cenas em experimentação, trazendo material a ser levantado para que os membros do coletivo, em suas respetivas funções, trabalhem sobre ela. E nós, espectadores/testemunhas, temos tido o privilégio de acompanhar os passos do processo e a possibilidade de comentar sobre o que temos visto. É um misto de generosidade e abertura que cada grupo se propôs ao entrar para o projeto. E cada coletivo saiu ainda com mais elementos para o trabalho de criação, nessa experimentação que conjuga o desejo de partilhar a criação colaborativamente.

 

artilharia cênica

A CRIAÇÃO – Mês de MAIO de 2024

Até o momento, todos os nossos projetos artísticos foram direcionados ao público adulto. No entanto, há pelo menos um ano, nutrimos dois desejos que se relacionam: criar uma produção para todas as idades e conceber um espetáculo de rua. Com esses objetivos em mente, iniciamos uma jornada de pesquisa e exploração sobre possíveis temas que desejávamos abordar artisticamente, e chegamos em alguns questionamentos cada vez mais urgentes para nós: para onde estamos nos encaminhando emocionalmente em uma sociedade onde as crianças já nascem imersas em um mundo digital, expostas a uma infinidade de telas e realidades virtuais? Qual é o custo, presente ou futuro, de investir tanto em uma existência online? Até que ponto estamos dispostos a explorar a fusão entre humanos e máquinas?

Explorando os temas que orbitam essas indagações - como máquinas, robótica, inteligência artificial, dispositivos eletrônicos e a economia da atenção - nos deparamos com um conto de E. T. A. Hoffmann, escritor alemão do século XIX, intitulado "O Homem da Areia" (1887). Surpreendentemente, mesmo escrito há 137 anos, o conto já abordava a paixão de um dos personagens por um autômato, um dispositivo com aparência humana. Fascinados pelas inúmeras possibilidades dramatúrgicas que esse conto proporciona e pelas ilustrações provocativas de Eduardo Berliner na edição mais recente, percebemos imediatamente a oportunidade de incorporar técnicas do teatro de formas animadas ao nosso trabalho para representar personagens, formas ou situações inspiradas no conto.

Um dos integrantes do grupo traz consigo tanto experiências acadêmicas quanto práticas no campo do teatro de formas animadas, incluindo um espetáculo com a renomada artista Eros P. Galvão. Certo dia, este integrante fez a proposta de que Eros, diretora, atriz, manipuladora de bonecos e bailarina da Cie Les Trois Clés, assumisse a direção deste processo de criação cênica. Tanto ela quanto os demais membros do grupo acolheram a ideia com entusiasmo, e agora ela se junta a nós para dar vida a este projeto de criação, que está ganhando cada vez mais forma e substância.

O conto fantástico de Hoffmann, "O Homem da Areia", servirá como uma das referências para nossas criações textuais, movimentos e visualidades. Sua narrativa surrealista e

fantástica estimula nossos sentidos, emoções e imaginação de uma forma singular, e é exatamente essa atmosfera que buscamos trazer para a cena e para a relação com nossos públicos.

 caras pintadas & cia el individuo

 maldita cia de investigação teatral

"O passado, ainda que pareça imóvel, nunca para de se mover." _ Rodrigo Fresán, O fundo do céu

des-encarcerar memórias

TRANSIRE, “cruzar, atravessar”


A travessia vai e vem.
Um de seus começos é em 2018, quando gestamos a residência “Banho de Sol”, no prédio que abrigou o DOPS na ditadura militar, e tantos outros cárceres em seguida (um tanto dessa história está contada aqui: www.malditacia.com/abordodotranse).
Começa outra vez também quando Amaury encontra Carmela, Lenine olha o futuro do filho, Elba encontra uma avó, Anderson encontra a mãe, Morgana encontra os pedaços de gengibre, Vini encontra o pai, Ricci encontra os gatos, Natália encontra o avião, Emely encontra uma cervejinha no fundo da geladeira, Ad encontra O Guarani, ou etc. ou etc. ou etc.
Desde lá, espiralamos em torno desse território _ memórias de terror, desobediência e ternura.

  morro encena